“...Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.”
(Paulo em Filipenses 4.11)
Que lição preciosa aprendeu Paulo! Viver contente na fartura, na saúde, na ausência de aflições é algo sem desafio, e, diga-se de passagem, existem pessoas que reclamam e murmuram em toda e qualquer circunstância, mas, estar contente na escassez, na aflição, na perda, isso sim é algo tão impressionante que a mentalidade moderna chega a achar absurdo, doentio, síndrome de pobreza, discurso de fracassado, e vai por aí...
Nesses dias em que somos bombardeados com o conceito de prosperidade em todos os seguimentos da sociedade, onde felicidade está diretamente relacionada com aquisição de bens, com materialismo e consumismo, quando ter é mais importante do que ser, quando as qualidades só são valorizadas se produzem ou produziram bens econômicos.
Esse modo de vida tem levado muitos a constantes dores, confirmando o que diz as Escrituras: “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”[1] (grifo meu) . E o sintoma desse problema é facilmente verificado quando se está na iminência de perder algo que juntamos, ou perder um status, um conforto, uma realidade da qual estamos acostumados a viver. É preciso entender que muitas vezes é necessário perder para se ganhar algo maior, coisas que possuímos podem impedir nossa visão e percepção de degraus maiores que a vida tem para nós. Vivendo assim, aprendemos a transformar perdas em grandes vitórias.
As principais necessidades humanas se encontram na área das afeições, emoções e espiritualidade e somente relacionamentos podem satisfazer de fato essas necessidades, e sendo honesto, percebemos claramente que bens não compram relacionamentos satisfatórios; relações construídas com base em bens, geram profundas frustrações, pois a essência das relações saudáveis está na espontaneidade e no amor incondicional que valorizam as virtudes do caráter, da personalidade. Observe você mesmo, que as suas melhores relações, aquelas que lhe trazem real satisfação, foram obtidas com base em convivência real e não fingida, onde você pode se mostrar como de fato você é. E ao fazer essa análise você perceberá que talvez tenha apenas uma, duas ou infelizmente nenhuma relação satisfatória.
O contentamento tem a ver com uma maneira grandiosa de enxergar a realidade, de reconhecer os verdadeiros valores da vida, valores que fizeram com que homens deixassem marcas profundas na vida de outras pessoas mesmo depois que seus corpos desaparecessem, seus valores da alma e do caráter foram maiores que suas estruturas físicas que desfrutaram ou não, dos confortos materiais desse mundo.
Quando percebemos que somos nós que atribuímos valor às coisas e não o inverso, que a vida é maior do que todos os bens que pudermos ajuntar, que estes não significarão muito na hora de partirmos. O que somos sim, fará a diferença para aqueles a quem realmente amamos e a quem verdadeiramente nos amou.
Paulo ensina que o contentamento é algo que se aprende, ensina que contentamento é a habilidade de encontrar razões para se estar contente em sim mesmo (na sua experiência de vida.[2]) e em Deus, escreve ele: “Tudo posso naquele que me fortalece”[3] ou seja, Paulo não dependia de nenhuma circunstancia externa para estar contente, não admitia de forma alguma que necessidades materiais lhe roubassem a paz de espírito. Que grandeza! Que riqueza admirável! É importante dizer que Paulo estava preso em Roma, em meio a tribulações, quando escreveu essas palavras e dependia de donativos para se manter.
Isso soa de forma desagradável aos ouvidos daqueles que se encontram apegados às coisas que possui, ou mesmo apegados às coisas que desejam possuir, pois as Escrituras afirma ainda que: “...os que querem ficar ricos caem em tentação, e ciladas, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição.[4]” (grifo meu)
Creio que a riqueza por si só não é maléfica, nem de origem maligna e as Escrituras em lugar nenhum proíbe ser rico ou atribui pecado à riqueza. O problema está no homem, em sua condição humana de pecador que o faz relaciona-se com a idéia de riqueza de forma desajustada, atribuindo à riqueza uma importância e valor que não tem e buscando nela satisfação que não pode dar.
O homem foi criado para ter relacionamento com Deus, com o próximo e consigo mesmo e é nessa tríplice relação que ele encontra sentido e significado na vida, as coisas materiais estão aí para serem buscadas, devidamente adquiridas pelo trabalho e usadas para a manutenção e satisfação das necessidades humanas, não só de quem as possui, mas de todos àqueles que se encontram ao nosso redor, colocados em nosso caminho para nos ajudar a não ajuntarmos gananciosamente e inutilmente nossos bens. Deus criou as pessoas para serem amadas e as coisas para serem usadas, não podemos inverter, amando coisas e usado pessoas para obter mais coisas.
Que Deus nos ajude a alcançar a riqueza do contentamento, pois segundo as Escrituras: “...grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento[5]”. A felicidade está na simplicidade, portanto ela está plenamente ao seu alcance.
Nele, que sendo rico se fez pobre por amor de nós para que pela sua pobreza nos tornássemos ricos.[6]
Fábio de Souza Maia
[1] I Timóteo 6.10
[2] Em Filipenses 4. 11 e 12 Paulo relata que vivenciou situações difíceis que lhe ensinaram a ter contentamento.
[3] Filipenses 4.13
[4] I Timóteo 6.9
[5] I Timóteo 6.6
[6] Paráfrase de 2 Coríntios 8.9


Nenhum comentário:
Postar um comentário