"Ai de vós! Quando todos vos louvarem". Essas palavras de Jesus me fazem pensar no perigo da unanimidade, pois o que é a unanimidade? Senão também uma forma de louvor, aplauso, adesão, consentimento e concordância. E nisso existem perigos, pois unanimidade alimenta uma disposição à soberba, soberba essa que todos nós já possuímos em alguma medida, gerando assim, um certo ufanismo, uma falsa compreensão da realidade, e esses ingredientes formam a receita infalível para o fracasso. O profeta Obadias se refere à ruína dos Edomitas, registrando que eles foram “enganados pela soberba”. E ensina ainda Salomão que: “a soberba precede a ruína”.
O perigo da unanimidade também está na limitação de nossa percepção da realidade, passamos a enxergar apenas a nós mesmos, a nossa idéia e opinião como perfeita. Isso ocorre por causa da ausência do contraditório, ou seja, sem a crítica, sem a controvérsia não se apura, não se filtra a idéia. A importância da discordância está em nos fazer enxergar por outros ângulos uma mesma questão. Por isso cuidado! Pois, as luzes dos holofotes que nos destacam são as mesmas que nos impedem de enxergar direito.
A unanimidade é um perigo porque pressupõem que o consenso seja algo infalível. Absolutamente, a voz do povo não é a voz de Deus! Creio que Deus pode mostrar sua vontade por meio da maioria, por meio da vontade do povo. No entanto, essa não é uma norma infalível. A história de um modo geral nos ensina isso, pois grandes tragédias se deram por conta de decisões tomadas pelo consenso geral. A esmagadora maioria alemã apoiou a ascensão e política nazista de Hitler (incluindo grande parte dos cristãos), boa parte dos americanos (incluindo evangélicos), hoje lamenta o apoio dado ao governo Bush pela invasão ao Iraque. E tantos outros episódios comprovam essa afirmação.
É preciso administrar com muito cuidado os louvores e a unanimidade que nos oferecem. O governador Aécio Neves, comentando sobre seu avô o Ex-Presidente Tancredo, em uma entrevista na TV Cultura, disse ter ouvido dele quando o acompanhava em carro aberto sob os aplausos intensos da população que comemorava sua eleição à presidência, que: “... a maior quantidade de aplausos e apoio agora, é muito importante, pois chegará um momento, em que precisarei perdê-los por tomar decisões difíceis, mas necessárias”. Essa declaração reflete uma percepção quanto à certeza e necessidade, da perda da unanimidade.
Jesus não se impressionava com as multidões, não se fundamentou na adesão e concordância da maioria, não tinha essa pretensão. A seriedade de sua vida e ministério não o permitia se iludi com “os mantos e palmas”. Por isso, advertiu seus discípulos quanto aos perigos da unanimidade. Ai de vós! Quando todos vos louvarem.
As palavras de Santo Agostinho reforçam nosso conselho e opinião:
“Prefiro os que me criticam aos que me bajulam, pois os que me criticam, me corrigem, os que me bajulam me corrompem”. (Santo Agostinho)
Fábio Maia


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